sexta-feira, 22 de julho de 2016

ancestralidade




explicaram que existem 254 partes em mim. de olhos fechados, encarando meus órgãos - mais difícil do que espelho - tentei chegar até elas. uma estava abaixada na beira de um rio, cantando. jogava as roupas contra a água, como se tirasse algo do peito. senti alívio. outra veio até mim e falou sobre coragem. contou que deu dois tapas em seu senhor e fugiu. a mão ardeu durante três dias e então, depois que foi encontrada, ficou sem ela. deve ser por isso que algumas coisas não consigo segurar. outra parte, bem gorda, de barriga na beira do fogão, contou que seu super poder é fazer comida forte. sustentou treze filhos, todos parte de mim também. senti sua força no estômago, músculos e braços. agradeci.

convidaria todas as partes para uma festa. contaríamos nossos segredos. falaríamos sobre como a vida afasta as pessoas. trocaríamos livros. deitaríamos no colo umas das outras, acariciaríamos nossos cabelos crespos. e eu choraria. duzentas. duzentas e cinquenta e quatro vezes.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

da vida






sabe quando dá pra enxergar o corpo por fora? tá entendendo o que quero dizer? você está lá, deitada, e consegue visualizar o lençol amassado, desprezado pela quentura da noite. enxerga de cima um corpo entregue ao sono, mão esquerda para fora da cama, pernas em 45 graus, barriga pra cima, rosto para o lado, cabelo assanhado, nariz entupido e boca entreaberta. o caderno na cabeceira ainda está aberto, a televisão ligada no EP8S2. feche aquela janela ali, por favor. bem, como ia dizendo, esse tipo de sonho costuma ser interpretado como uma experiência de sensibilidade espiritual. tá entendendo o que quero dizer? tô falando isso porque, geralmente, o corpo acorda e se depara com o outro corpo, que não passa do mesmo corpo, observando tudo por cima. e, não sei o que acontece, mas parece que alguém clica no mute e ninguém consegue ouvir nada. você grita, mas não ouve o grito. você mexe as pernas, mas elas não saem do lugar, muito pelo contrário: fazem questão de te avisar que você não deve ir a lugar nenhum. tá entendendo o que eu quero dizer? sabe aquele outro sonho? o que a gente corre, corre, mas não sente que saiu do lugar? ou aquele em que ladrões e assassinos correm atrás de você com uma marreta e, apesar de conseguir se mexer, você percebe que a perseguição não tem fim? é exatamente assim que eu me sinto com você. sente aqui mais perto, deixa eu te explicar melhor. te coloco imóvel para falar sobre a necessidade de reagir. parece que você deve acordar, mas ao mesmo tempo que o sonho é ruim, o colchão é bom e o corpo prefere a inércia à mudança. tá entendendo o que quero dizer? levante, morda as mãos, belisque as próprias pernas, acorde suada, perdida, olhando para os lados, mas abra os olhos. e pare de comer desesperadamente antes de dormir. 


beijos,
vida.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

você precisa escrever alguma coisa






abro o doc no drive e digito um título que diz tudo. há meses não apareço neste blog. ‘’você precisa escrever alguma coisa’’, diz minha consciência frustrada pelo ócio criativo, pela falta de objetividade com ideias e palavras. penso em escrever sobre minha última sessão de terapia, mas me veio a insegurança comum de quem teme abrir as janelas para que os outros espiem. e aí tento me lembrar de quem disse que o escritor não pode ter este tipo de receio. se tiver, jamais escreverá. parece algo bem henry miller, mas também pode ter sido um professor de literatura do ensino fundamental. enquanto desisto de tentar colocar a citação no texto, lembro do meu pai, jornalista, dizendo ser capaz de escrever 10, 20, 100 artigos no dia, se assim pedirem. já eu, redatora publicitária, aprendi a passar 10, 20, 100 horas em busca de um título. técnica é para poucos, mas sentimento eu tenho de muito por aqui. tento encontrar um estilo e acho apenas o que me aparece todos os dias no espelho: eu, incerta de tudo, querendo apenas tirar da mente e colocar no papel. preciso escrever sobre o mapa da exclusão racial no brasil. preciso escrever sobre não encaixar nos meios. preciso escrever sobre a droga da minha necessidade de escrever. em busca de inspiração, leio um capítulo aleatório do mulheres que correm com os lobos e decido ouvir os ancestrais. desisto e leio um textão no face que me faz querer dialogar sobre a nossa atual self-conjutura-politico-depreciativa-de-nós-mesmos, redundante e real. leio um rascunho velho na agenda e lembro que as palavras mais sinceras são ditas em silêncio, entre uma página e outra. mas sento a bunda numa cadeira e não escrevo sobre nada. ‘’você é uma fraude’’, diz mais uma vez a minha consciência, que agora está se sentindo injustiçada. o que me restou foi escrever um texto sobre o texto que não consigo escrever. e assim chego a conclusão de que, pelo menos, escrevi alguma coisa. 


sexta-feira, 28 de agosto de 2015

dia bom



já os dias bons precisam de música. começam com belchior dando um tapa matinal na sua cara, mostrando que amar e mudar as coisas interessa mais do que o mau-humor provocado pelo alarme do celular. por falar nele, dias bons tendem a fazê-lo tocar na hora do almoço para que você ouça a voz de alguém que diz vamos-almoçar-juntos-hoje? duas horas (e meia) de risadas e recargas de energia para o segundo tempo do expediente. mas dias bons jogam na sua timeline um vídeo que mostra mil músicos tocando o clássico de uma das suas bandas preferidas. no meio da noite desse dia bom, você é capaz de salvar a amiga de um assalto enquanto ouve, ao vivo, jorge du peixe dizer que só tem caranguejo esperto saindo desse manguezal. ao chegar em casa, um dia bom continua te presenteando com o ‘’no, woman no cry’’ que vem do vizinho.



*o dia bom pode durar de 24 horas a seis meses, dependendo do que aparecer no modo aleatório do seu spotify.


leia dia ruim.

terça-feira, 7 de julho de 2015

dia ruim




dias ruins não são necessariamente chuvosos. eles só precisam ter noventa e duas horas. as primeiras vinte e duas guardam uma grande bola d’água entre a laringe e a epiglote. dessas que necessitam de uma respiração profunda para que continue lá, sem subir ou descer,  segurando qualquer ameaça de fraqueza em locais públicos. as próximas horas podem ser embaixo do chuveiro, até o momento de lembrar que a água está acabando no mundo. seria um egoísmo tremendo não se preocupar com a água do mundo enquanto saem litros de você. isso tudo faz com que as próximas cinco horas sejam de extrema culpa, pois se tem gente sem água no mundo você não tem problemas o suficiente para tamanho desespero. a melhor solução seria tomar um copo. de água. e continuar respirando fundo.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

festa pagã




fez juras de amor ao som de ''eu quero trepar num pé de coco/eu quero trepar pra ver se é oco'' e sentiu a benção verdadeira. desistiu da ideia de morar fora no mês que vem quando percebeu que em nenhum outro lugar do mundo vende axé de fala. ouviu o relato emocionado de um pai que tomou lsd junto com o filho. contou até três e atingiu o nirvana ao andar sem tirar os pés do chão, achando pouco, querendo mais. abandonou o 3g e optou pela sinergia. logo fez pacto de amizade com desconhecidos e declarações por telepatia com amigos da vida inteira. manchou a pele de lama, de tinta e de suor dos outros. sorriu no meio do inferno, porque era exatamente ali que queria estar. 

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

planos




disse ''tudo bem. se não der certo, a gente vai morar na chapada pra montar uma casa azul, comer o que plantar e ouvir até o barulhin de uma pedra caindo na água. os dias serão todos quentes e as noites serão todas mais ou menos. no cantinho da porta eu escrevo bem-vindo, que é pra todo mundo saber que é bem-vindo mesmo. mas não se preocupa. se não der certo, a gente pega um avião pra morar num país quente onde as pessoas fazem coques assanhados na cabeça. lá a gente tem sotaque pra rir e paisagem pra lembrar da nossa. não esquenta não, se não der certo eu aprendo a tocar um instrumento e você finge que canta alguma coisa. escreveremos uma composição que não entrará para a história mundial da música, mas será eternizada pela nossa linhagem. não precisa ter medo. podemos construir um barco colorido com mensagens levadas ao alto-mar, já pensou que poético? se não der certo, não tem problema. abriremos uma empresa própria com ideologia própria e público próprio para quebrar o sistema que não é próprio, é dos outros. não esquenta, não. vai dar tudo certo. se não der, a gente...''

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

astral




Eu passei a vida inteira pensando que era libra com ascendente em libra. Pra quem não sabe: parece que depois dos 30 você é muito mais seu ascendente do que seu signo original – o que é uma injustiça porque eu realmente gosto de ser libriana. Enfim. Descobri que meu ‘’novo ascendente’’ é peixes e estou tentando administrar isso.

Tenho uma grande amiga de peixes, mas não sei o que significa. Pergunto e ela responde que é feliz com isso porque desde que entrou em sintonia com o próprio astral passou a compreender melhor o seu-eu. Digo que quero compreender o meu-eu também, mas ela só responde que quando você respeita o ciclo do mundo ele simplesmente te abraça. Continuo sem entender.

Lembro de quando era mais nova e paquerava com um artista canceriano que dirigia uma Caloi Fiorentina. Ele falava do seu combo família-lar-noites de tormenta e eu achava poético, mas não tanto. Depois conheci um escorpião cujo as palavras chaves eram sedução-maconha-carboidrato depois as 6. Fui morar com ele.

Gostaria de ter o ascendente em virgem, pois meu novo trânsito astrológico disse que estou numa boa hora para arrumar o guarda-roupa. Faz uns seis meses que afasto o meu eu-organizado, mas realmente não consigo escolher entre viver na bagunça ou inibir a minha personalidade. Isso é tão libriano. 

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

a menina e o povo




a menina nasce. querem que ela seja linda, que ela tenha brincos e que ela vire uma princesa. a menina cresce. querem que ela diga coisas fofas, que seja carinhosa e que só brinque de boneca. a menina cresce mais um pouquinho. querem que ela aprenda a cuidar da casa, que ajude a lavar os pratos e que passe uma vassoura. do seu irmão não querem nada. a menina vira mulher. querem que ela não provoque, não fale palavrão e não esqueça de cruzar as pernas. a mulher é mal falada. querem que ela feche esse decote, que seja como a filha de fulano e que não tenha amigos homens. a mulher é assediada na rua. querem que ela não rebole, que não use essa saia e aceite de vez ouvir esses elogios. a mulher é assediada na festa. querem que ela não beba, que não dance, não diga nada. a mulher se apaixona. querem que ela aceite, que homem é assim mesmo e que é pra mulher direita que ele volta. a mulher engravida. querem que ela tenha o filho, que ela fique realizada e que entre em forma rápido. a mulher se separa. querem que ela emagreça, que nenhum homem vai querer alguém assim e que ela tem que se valorizar. alisa esse cabelo, ajeita esse nariz, levanta esse peito. a mulher entristece. querem que ela seja feliz, que tenha remédios controlados e não coma glúten. a mulher envelhece. querem que ela não tenha cabelos brancos, que não tenha desejos e não use essas roupas. a mulher morre. e as pessoas continuam querendo.



segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

banho de mar



[TUUUUUUUM]


podia ser labirintite, mas é só o barulho do meu mais novo lugar preferido.

mergulho e não é nem na água clara, pura e cristalina que eu (acho) que mereço. 

sentir o abraço da água é como ganhar o perdão do mundo

já percebeu? 

não que eu esteja exercitando o meu eu-compreensivo como deveria, 

mas no mar grande você se sente tão pequeno que tudo

é mundo 

e tudo

é perdão

saca?


em apenas um banho de mar você perde aqueles dois quilos que estavam pesando

na alma.

tenta um mergulho profundo e adeus sinusite.

umas braçadas e sai a ideia genial pra aquele projeto.

mais algumas e você desiste dessa mania de que todo mundo tem que ter um projeto

e nada. 

tocar a areia com os pés is the new ''luz no fim do túnel''.

boiar meia horinha dispensa visita ao otorrino.

e quando aquela área entre os olhos e as bochechas começa a arder

é porque chegou a hora de sair

pra mostrar a cara.