sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

você precisa escrever alguma coisa






abro o doc no drive e digito um título que diz tudo. há meses não apareço neste blog. ‘’você precisa escrever alguma coisa’’, diz minha consciência frustrada pelo ócio criativo, pela falta de objetividade com ideias e palavras. penso em escrever sobre minha última sessão de terapia, mas me veio a insegurança comum de quem teme abrir as janelas para que os outros espiem. e aí tento me lembrar de quem disse que o escritor não pode ter este tipo de receio. se tiver, jamais escreverá. parece algo bem henry miller, mas também pode ter sido um professor de literatura do ensino fundamental. enquanto desisto de tentar colocar a citação no texto, lembro do meu pai, jornalista, dizendo ser capaz de escrever 10, 20, 100 artigos no dia, se assim pedirem. já eu, redatora publicitária, aprendi a passar 10, 20, 100 horas em busca de um título. técnica é para poucos, mas sentimento eu tenho de muito por aqui. tento encontrar um estilo e acho apenas o que me aparece todos os dias no espelho: eu, incerta de tudo, querendo apenas tirar da mente e colocar no papel. preciso escrever sobre o mapa da exclusão racial no brasil. preciso escrever sobre não encaixar nos meios. preciso escrever sobre a droga da minha necessidade de escrever. em busca de inspiração, leio um capítulo aleatório do mulheres que correm com os lobos e decido ouvir os ancestrais. desisto e leio um textão no face que me faz querer dialogar sobre a nossa atual self-conjutura-politico-depreciativa-de-nós-mesmos, redundante e real. leio um rascunho velho na agenda e lembro que as palavras mais sinceras são ditas em silêncio, entre uma página e outra. mas sento a bunda numa cadeira e não escrevo sobre nada. ‘’você é uma fraude’’, diz mais uma vez a minha consciência, que agora está se sentindo injustiçada. o que me restou foi escrever um texto sobre o texto que não consigo escrever. e assim chego a conclusão de que, pelo menos, escrevi alguma coisa. 


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