terça-feira, 5 de janeiro de 2016

da vida






sabe quando dá pra enxergar o corpo por fora? tá entendendo o que quero dizer? você está lá, deitada, e consegue visualizar o lençol amassado, desprezado pela quentura da noite. enxerga de cima um corpo entregue ao sono, mão esquerda para fora da cama, pernas em 45 graus, barriga pra cima, rosto para o lado, cabelo assanhado, nariz entupido e boca entreaberta. o caderno na cabeceira ainda está aberto, a televisão ligada no EP8S2. feche aquela janela ali, por favor. bem, como ia dizendo, esse tipo de sonho costuma ser interpretado como uma experiência de sensibilidade espiritual. tá entendendo o que quero dizer? tô falando isso porque, geralmente, o corpo acorda e se depara com o outro corpo, que não passa do mesmo corpo, observando tudo por cima. e, não sei o que acontece, mas parece que alguém clica no mute e ninguém consegue ouvir nada. você grita, mas não ouve o grito. você mexe as pernas, mas elas não saem do lugar, muito pelo contrário: fazem questão de te avisar que você não deve ir a lugar nenhum. tá entendendo o que eu quero dizer? sabe aquele outro sonho? o que a gente corre, corre, mas não sente que saiu do lugar? ou aquele em que ladrões e assassinos correm atrás de você com uma marreta e, apesar de conseguir se mexer, você percebe que a perseguição não tem fim? é exatamente assim que eu me sinto com você. sente aqui mais perto, deixa eu te explicar melhor. te coloco imóvel para falar sobre a necessidade de reagir. parece que você deve acordar, mas ao mesmo tempo que o sonho é ruim, o colchão é bom e o corpo prefere a inércia à mudança. tá entendendo o que quero dizer? levante, morda as mãos, belisque as próprias pernas, acorde suada, perdida, olhando para os lados, mas abra os olhos. e pare de comer desesperadamente antes de dormir. 


beijos,
vida.

Um comentário:

  1. O Blog mais lindo que li nos últimos tempos. Você escreve divinamente bem. Parabéns!

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Agora, me conta uma coisa você.